Mensagens

Ele é que sabe

  - Entreguei-me a Deus - responde D. Emília à jornalista que procurava saber do seu estado de espírito durante o incêndio que lhe rodeou a casa. D. Emília entregou-se a Deus e Deus tem as costas largas. As senhoras do centro de dia não queriam que a D. Emília fosse para casa. O fogo estava próximo e era perigoso para uma pessoa da sua idade, sozinha. Mas a D. Emília queria dormir na sua cama. Disse às senhoras do centro de dia que ia para casa da nora, elas ficaram descansadas e assim que viraram costas ela foi para a sua 'casinha'. Assoberbada pela paisagem dantesca, a jornalista pergunta-lhe se dormiu ao que responde - Dormi! Eu tomo medicação. - A D. Emília toma medicação e dormiu sossegada sob a vigilância de Deus, se o fogo chegasse seria o que Deus quisesse.

Crónicas do Quotidiano

Vicissitudes de se "frequentar" uma terra pequena: ​A menina da caixa aproximou-se, convidando-me a pagar numa das caixas automáticas recém-chegadas ao supermercado. Percebendo que a novidade da tarefa a deixava sob escrutínio, anuí , contrariando os princípios que normalmente me fazem rejeitar esse tipo de tecnologia. Mostrei-me interessada, fiz perguntas e agradeci as reverências da praxe. E nquanto se encerrava a tarefa, um funcionário, ex-funcionário ou amigo da Menina gozava com a situação, falando alto de outra caixa: - Ai! Ovelhas não são para mato. - Que esta tecnologia é demasiado avançada para a terrinha e tal... ​Porque, sim, tudo o que eu estava a precisar era do julgamento de um alienado incapaz de perceber o que aquela sofisticada tecnologia significa para si, para o seu trabalho ou para os seus.

Luzinha

A minha mãe chamou-me para ir lá fora, a correr, ver um ‘carreirinho de luzes’ que não eram estrelas nem uma ‘iluminação de Natal’ porque ia muito alta. - Vem aqui! D epressa! - Gritava ela. Fui, claro, mas já não vi luzinhas a brilhar e disse-lhe que eram satélites. - Ali! -  Apontava. - Se calhar é dos óculos, não vejo nada... Devem ser os satélites Há dias, vi umas publicações, nas redes sociais, acerca dos comboios de satélites do Elon Musk e pareceu-me uma hipótese plausível, qualquer outra é menos provável e mais preocupante. Uma nave extraterrestre pode significar o fim da humanidade tal como ela é, não se perdendo muito já que estamos cada vez mais perto de esgotar todas as possibilidades de evolução positiva que tínhamos, era chato. E, uma alucinação implicaria recorrer a mais uma especialidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que, como se sabe, não vai bem. Satélites, contentamo-nos com a possibilidade de serem satélites que nos levou à certeza de que tenho que ...

A Implicação

  -Vámoláver, desconfiar, desconfiava de qualquer coisa, mas não era de nada disto… No início, o Padrinho contactava-me amiúde, contava-me as suas conquistas e eu pedia-lhe ajuda para resolver coisas complicadas que me apareciam no serviço,  mas depois eu mudei-me para o palácio e o Padrinho passou a contactar o meu chefe de gabinete, combinavam coisas, só sabia dele quando o meu chefe de gabinete me dizia com ar gozão "o Padrinho mandou-te um abraço". Pensei em telefonar-lhe, confrontá-lo, mas não queria parecer implicativo.  Éramos amigos de casa, as nossas famílias faziam férias juntas, não percebia aquele afastamento. Custava-me. Também nunca confrontei o meu chefe de gabinete, não sou um desses patrões implicativos … confiava nele e dava-lhe liberdade. Quando o Padrinho começou a aparecer no palácio, com outras pessoas para reunir com o meu chefe de gabinete, fazia por me cruzar com ele e ele nada. Nunca me apresentou às pessoas com quem depois ia almoçar…  Sent...

alma.na.que

A minha mãe guarda os Almanaques dos Missionários da Boa Nova no armário da casa-de-banho. Tem uma colecção muito expressiva, o mais antigo é de 2000. Não sei como começou, mas entretanto já me sinto super capaz de cuidar da horta que não tenho.  Em Novembro, plante alhos! Nem toda a gente gosta de alhos, eu gosto de alhos, são úteis. Estes Almanaques têm o propósito de patrocinar as missões desenvolvidas pela congregação, em África. Contam a vida dos santos, informam as estações, os dias e as luas, como tratar da horta e têm algumas páginas dedicadas a um 'humor de caserna' a que a minha mãe não resiste. Volta e meia diz apontando na direcção da casa-de-banho 'num daqueles Almanaques, que estão ali...' e todos sabem que vai repetir uma das piadas que vem como nova mais ou menos de três em três anos.  Antigamente, as revistas dos missionários eram vendidas por uma velhinha, ligeiramente corcunda, que nos salvava muito baixinho com um 'louvado seja nosso senhor Jesus...

Cinema

'Gosto de cinema', é uma afirmação como outra qualquer, desprovida da profundidade que o outro normalmente espera. – Ai, sim? Gostas de cinema. Então e porquê? – O outro é chato! Não me identifico muito com ele, deixa-me desconfortável. Eu ficaria só pelo – Gostas? Que bom! – Mas o outro quer sempre mais. Não é que eu ligue muito ao outro, mas como recebi uns meses de assinatura da plataforma de streaming Filmin  ao assinar o jornal Público num breve acesso de loucura, resolvi que ia tirar notas de todos os filmes que visse nessa plataforma. Tenho o telemóvel cheio de notas.  Não caí na tentação de atribuir estrelinhas como os críticos do Público que devem tirar um certo prazer disso – Scorsese? Uma estrelinha! Assim percebem que sou muito exigente e não me vergo aos grandes… Acho que procurava só ser  uma espectadora mais emancipada , não esperava erudição, mas também não sei se o que devia esperar era o que à distancia encontrei. Segue-se um exemplo.   Ida...