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Cinema

'Gosto de cinema', é uma afirmação como outra qualquer, desprovida da profundidade que o outro normalmente espera. – Ai, sim? Gostas de cinema. Então e porquê? – O outro é chato! Não me identifico muito com ele, deixa-me desconfortável. Eu ficaria só pelo – Gostas? Que bom! – Mas o outro quer sempre mais. Não é que eu ligue muito ao outro, mas como recebi uns meses de assinatura da plataforma de streaming Filmin  ao assinar o jornal Público num breve acesso de loucura, resolvi que ia tirar notas de todos os filmes que visse nessa plataforma. Tenho o telemóvel cheio de notas.  Não caí na tentação de atribuir estrelinhas como os críticos do Público que devem tirar um certo prazer disso – Scorsese? Uma estrelinha! Assim percebem que sou muito exigente e não me vergo aos grandes… Acho que procurava só ser  uma espectadora mais emancipada , não esperava erudição, mas também não sei se o que devia esperar era o que à distancia encontrei. Segue-se um exemplo.   Ida...

No caminho dos outros

  Já não há burros que nos carreguem no percurso até à Quinta de Vila Nova.  Seriam úteis, apesar de o caminho não ser muito longo é demasiado longo para o pouco que estamos habituados a andar. Seriam tão úteis como devem ter sido ao Jacinto quando percorreu pela primeira vez o caminho que hoje tem o seu nome e pelo mesmo motivo, o sermos demasiado urbanos para isto. ‘Aregos’, lembro-me de em miúdos esperarmos ansiosos pela próxima estação, prontos a exibir as habilidades de leitura e acharmos muita piada aos nomes, cada um mais estranho do que o outro. Os nomes das estações na direção inversa não suscitavam tanta gargalhada. Caldas de Aregos, Caldas de Canaveses…gostava quando me diziam que ali eram as caldas. As termas remetiam-me para senhoras de vestidos longos, chapéus e sombrinhas... Influencia das séries inglesas que passavam na televisão. Sente-se a falta de gente nas ruas. As poucas que se vêem entretêm-se nos quintais, tentam contrariar a seca. - Ao preço a que ...

Nobel

  Mais uma vez, o Nobel da Literatura, não foi para Lobo Antunes ou, para outro português. Nem vai enquanto não houver uma aposta governativa semelhante à que fazem com o patrocínio a grandes obras de arte que são só isso, grandes, e com a internacionalização do cinema. Sendo que no caso do Turismo é incompreensível que não façam mais promoção ou eventos literários já que não deve existir um único município sem uma Casa-Museu ou centro de interpretação dedicado a um escritor. Os portugueses são frequentemente acusados de não se interessarem por literatura, mas os portugueses adoram os seus escritores e usufruem deles na medida em que eles lhes são oferecidos. Mesmo que o que lhes ofereçam seja só o orgulho na conterraneidade. O nome da rua, a estátua do largo, o túmulo e a casa-museu que visitam amiúde ao longo da escolaridade obrigatória...  Depois, os poucos eventos locais destinam-se aos doutores e políticos que vão a convite e não são muito abertos à diferença, ao empre...

Telemarketers

Telemarketers é uma série documental disponibilizada pela HBO no final de Agosto. Dividida em 3 episódios, percorre 20 anos da história dos autores e principais ‘personagens’ que se conheceram quando trabalhavam num call center americano. Quando Sam Lipman-Stern deixou o liceu e começou a trabalhar como telemarketer , numa campanha de angariação de doações para fundos e organizações policiais, encontrou um ambiente de trabalho peculiar que resolveu, por graça, começar a filmar. Em 2003, partilhar imagens num canal de Youtube não era tão usual como agora, nem tinha as mesmas consequências, o que somado ao ambiente de trabalho pouco tradicional permitia que do nada sacasse de um telemóvel ou camara doméstica para registar a sala,os colegas e listas com o nome das associações que contratavam os seus serviços bem como dos beneméritos, as pessoas que se comprometiam a doar um valor periódico às associações a que eles diziam pertencer.  Inicialmente, Sam tinha como único propósito brinc...

Saraus

  Não compreendia a insistência do Conde de Lagareyro em convidá-la para estes saraus. Sentia-se deslocada. Toda a encenação que aquelas pessoas colocavam à sua volta a incomodava preferia interagir com os reposteiros e os cortinados do que com elas.  A pose, as roupas demasiado elaboradas que se desdobravam em camadas, os pós… tudo a retraía em relação aos restantes convidados. Era tudo tão gasto e eram todos tão iguais. Por mais que o Conde gastasse os seus dons de barítono a anunciá-los esquecia-se rapidamente de quem era quem. Felizmente, o vento que entrava pelas enormes janelas trazia aromas a flores e citrinos que contrariavam o cheiro a mofo e a naftalina que desfilava pelo salão. O estado dos cortinados deixava adivinhar que as investidas do Conde à Viúva de Bulhão Pato não tinham sortido efeito. Aparentemente, os zumzuns de que a Viúva de Bulhão Pato tinha fugido com o jovem armado em Casanova que conheceu no último sarau organizado pelo próprio Conde de Lagareyro ...

Verde

Regressei a alguns lugares do passado. Recordava melhor uns do que outros. Não me lembrava de que ‘Twin Peaks’ tinha tantos episódios . Dois a três episódios por dia e ainda não sei quem matou a Laura Palmer! Também não me lembrava de ser tão paciente com os períodos de insónia nem de como os sonos leves que os medeiam me proporcionam sonhos dos quais consigo recordar algumas cenas. Raramente me lembro dos sonhos, mas destes em que visito o subconsciente por alguns minutos, se me intrigarem o suficiente para os questionar assim que acordo, lembro-me.  Numa dessas noites em que depois de tardar a adormecer caí num sono leve e cansativo sonhei que ia a uma joalharia ajudar um conhecido escritor português a escolher jóias. Entrei na joalharia e ele que já estava a ver as peças pergunta-me erguendo uns brincos – Que achas? – tratava-me por tu. E, porque não? Se partilhamos a intimidade de um sonho… insistia – São lindos, não são? – E eu a ver que não, a ver que eram horríveis, mas sem...