Mensagens

Crónicas do Quotidiano

Vicissitudes de se "frequentar" uma terra pequena: ​A menina da caixa aproximou-se, convidando-me a pagar numa das caixas automáticas recém-chegadas ao supermercado. Percebendo que a novidade da tarefa a deixava sob escrutínio, anuí , contrariando os princípios que normalmente me fazem rejeitar esse tipo de tecnologia. Mostrei-me interessada, fiz perguntas e agradeci as reverências da praxe. E nquanto se encerrava a tarefa, um funcionário, ex-funcionário ou amigo da Menina gozava com a situação, falando alto de outra caixa: - Ai! Ovelhas não são para mato. - Que esta tecnologia é demasiado avançada para a terrinha e tal... ​Porque, sim, tudo o que eu estava a precisar era do julgamento de um alienado incapaz de perceber o que aquela sofisticada tecnologia significa para si, para o seu trabalho ou para os seus.

Luzinha

A minha mãe chamou-me para ir lá fora, a correr, ver um ‘carreirinho de luzes’ que não eram estrelas nem uma ‘iluminação de Natal’ porque ia muito alta. - Vem aqui! D epressa! - Gritava ela. Fui, claro, mas já não vi luzinhas a brilhar e disse-lhe que eram satélites. - Ali! -  Apontava. - Se calhar é dos óculos, não vejo nada... Devem ser os satélites Há dias, vi umas publicações, nas redes sociais, acerca dos comboios de satélites do Elon Musk e pareceu-me uma hipótese plausível, qualquer outra é menos provável e mais preocupante. Uma nave extraterrestre pode significar o fim da humanidade tal como ela é, não se perdendo muito já que estamos cada vez mais perto de esgotar todas as possibilidades de evolução positiva que tínhamos, era chato. E, uma alucinação implicaria recorrer a mais uma especialidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que, como se sabe, não vai bem. Satélites, contentamo-nos com a possibilidade de serem satélites que nos levou à certeza de que tenho que ...

A Implicação

  -Vámoláver, desconfiar, desconfiava de qualquer coisa, mas não era de nada disto… No início, o Padrinho contactava-me amiúde, contava-me as suas conquistas e eu pedia-lhe ajuda para resolver coisas complicadas que me apareciam no serviço,  mas depois eu mudei-me para o palácio e o Padrinho passou a contactar o meu chefe de gabinete, combinavam coisas, só sabia dele quando o meu chefe de gabinete me dizia com ar gozão "o Padrinho mandou-te um abraço". Pensei em telefonar-lhe, confrontá-lo, mas não queria parecer implicativo.  Éramos amigos de casa, as nossas famílias faziam férias juntas, não percebia aquele afastamento. Custava-me. Também nunca confrontei o meu chefe de gabinete, não sou um desses patrões implicativos … confiava nele e dava-lhe liberdade. Quando o Padrinho começou a aparecer no palácio, com outras pessoas para reunir com o meu chefe de gabinete, fazia por me cruzar com ele e ele nada. Nunca me apresentou às pessoas com quem depois ia almoçar…  Sent...

alma.na.que

A minha mãe guarda os Almanaques dos Missionários da Boa Nova no armário da casa-de-banho. Tem uma colecção muito expressiva, o mais antigo é de 2000. Não sei como começou, mas entretanto já me sinto super capaz de cuidar da horta que não tenho.  Em Novembro, plante alhos! Nem toda a gente gosta de alhos, eu gosto de alhos, são úteis. Estes Almanaques têm o propósito de patrocinar as missões desenvolvidas pela congregação, em África. Contam a vida dos santos, informam as estações, os dias e as luas, como tratar da horta e têm algumas páginas dedicadas a um 'humor de caserna' a que a minha mãe não resiste. Volta e meia diz apontando na direcção da casa-de-banho 'num daqueles Almanaques, que estão ali...' e todos sabem que vai repetir uma das piadas que vem como nova mais ou menos de três em três anos.  Antigamente, as revistas dos missionários eram vendidas por uma velhinha, ligeiramente corcunda, que nos salvava muito baixinho com um 'louvado seja nosso senhor Jesus...

Cinema

'Gosto de cinema', é uma afirmação como outra qualquer, desprovida da profundidade que o outro normalmente espera. – Ai, sim? Gostas de cinema. Então e porquê? – O outro é chato! Não me identifico muito com ele, deixa-me desconfortável. Eu ficaria só pelo – Gostas? Que bom! – Mas o outro quer sempre mais. Não é que eu ligue muito ao outro, mas como recebi uns meses de assinatura da plataforma de streaming Filmin  ao assinar o jornal Público num breve acesso de loucura, resolvi que ia tirar notas de todos os filmes que visse nessa plataforma. Tenho o telemóvel cheio de notas.  Não caí na tentação de atribuir estrelinhas como os críticos do Público que devem tirar um certo prazer disso – Scorsese? Uma estrelinha! Assim percebem que sou muito exigente e não me vergo aos grandes… Acho que procurava só ser  uma espectadora mais emancipada , não esperava erudição, mas também não sei se o que devia esperar era o que à distancia encontrei. Segue-se um exemplo.   Ida...

No caminho dos outros

  Já não há burros que nos carreguem no percurso até à Quinta de Vila Nova.  Seriam úteis, apesar de o caminho não ser muito longo é demasiado longo para o pouco que estamos habituados a andar. Seriam tão úteis como devem ter sido ao Jacinto quando percorreu pela primeira vez o caminho que hoje tem o seu nome e pelo mesmo motivo, o sermos demasiado urbanos para isto. ‘Aregos’, lembro-me de em miúdos esperarmos ansiosos pela próxima estação, prontos a exibir as habilidades de leitura e acharmos muita piada aos nomes, cada um mais estranho do que o outro. Os nomes das estações na direção inversa não suscitavam tanta gargalhada. Caldas de Aregos, Caldas de Canaveses…gostava quando me diziam que ali eram as caldas. As termas remetiam-me para senhoras de vestidos longos, chapéus e sombrinhas... Influencia das séries inglesas que passavam na televisão. Sente-se a falta de gente nas ruas. As poucas que se vêem entretêm-se nos quintais, tentam contrariar a seca. - Ao preço a que ...

Nobel

  Mais uma vez, o Nobel da Literatura, não foi para Lobo Antunes ou, para outro português. Nem vai enquanto não houver uma aposta governativa semelhante à que fazem com o patrocínio a grandes obras de arte que são só isso, grandes, e com a internacionalização do cinema. Sendo que no caso do Turismo é incompreensível que não façam mais promoção ou eventos literários já que não deve existir um único município sem uma Casa-Museu ou centro de interpretação dedicado a um escritor. Os portugueses são frequentemente acusados de não se interessarem por literatura, mas os portugueses adoram os seus escritores e usufruem deles na medida em que eles lhes são oferecidos. Mesmo que o que lhes ofereçam seja só o orgulho na conterraneidade. O nome da rua, a estátua do largo, o túmulo e a casa-museu que visitam amiúde ao longo da escolaridade obrigatória...  Depois, os poucos eventos locais destinam-se aos doutores e políticos que vão a convite e não são muito abertos à diferença, ao empre...

Telemarketers

Telemarketers é uma série documental disponibilizada pela HBO no final de Agosto. Dividida em 3 episódios, percorre 20 anos da história dos autores e principais ‘personagens’ que se conheceram quando trabalhavam num call center americano. Quando Sam Lipman-Stern deixou o liceu e começou a trabalhar como telemarketer , numa campanha de angariação de doações para fundos e organizações policiais, encontrou um ambiente de trabalho peculiar que resolveu, por graça, começar a filmar. Em 2003, partilhar imagens num canal de Youtube não era tão usual como agora, nem tinha as mesmas consequências, o que somado ao ambiente de trabalho pouco tradicional permitia que do nada sacasse de um telemóvel ou camara doméstica para registar a sala,os colegas e listas com o nome das associações que contratavam os seus serviços bem como dos beneméritos, as pessoas que se comprometiam a doar um valor periódico às associações a que eles diziam pertencer.  Inicialmente, Sam tinha como único propósito brinc...

Saraus

  Não compreendia a insistência do Conde de Lagareyro em convidá-la para estes saraus. Sentia-se deslocada. Toda a encenação que aquelas pessoas colocavam à sua volta a incomodava preferia interagir com os reposteiros e os cortinados do que com elas.  A pose, as roupas demasiado elaboradas que se desdobravam em camadas, os pós… tudo a retraía em relação aos restantes convidados. Era tudo tão gasto e eram todos tão iguais. Por mais que o Conde gastasse os seus dons de barítono a anunciá-los esquecia-se rapidamente de quem era quem. Felizmente, o vento que entrava pelas enormes janelas trazia aromas a flores e citrinos que contrariavam o cheiro a mofo e a naftalina que desfilava pelo salão. O estado dos cortinados deixava adivinhar que as investidas do Conde à Viúva de Bulhão Pato não tinham sortido efeito. Aparentemente, os zumzuns de que a Viúva de Bulhão Pato tinha fugido com o jovem armado em Casanova que conheceu no último sarau organizado pelo próprio Conde de Lagareyro ...

Verde

Regressei a alguns lugares do passado. Recordava melhor uns do que outros. Não me lembrava de que ‘Twin Peaks’ tinha tantos episódios . Dois a três episódios por dia e ainda não sei quem matou a Laura Palmer! Também não me lembrava de ser tão paciente com os períodos de insónia nem de como os sonos leves que os medeiam me proporcionam sonhos dos quais consigo recordar algumas cenas. Raramente me lembro dos sonhos, mas destes em que visito o subconsciente por alguns minutos, se me intrigarem o suficiente para os questionar assim que acordo, lembro-me.  Numa dessas noites em que depois de tardar a adormecer caí num sono leve e cansativo sonhei que ia a uma joalharia ajudar um conhecido escritor português a escolher jóias. Entrei na joalharia e ele que já estava a ver as peças pergunta-me erguendo uns brincos – Que achas? – tratava-me por tu. E, porque não? Se partilhamos a intimidade de um sonho… insistia – São lindos, não são? – E eu a ver que não, a ver que eram horríveis, mas sem...

Suécia

Pensei que a peça que marca a estreia do Pedro Mexia como dramaturgo ia ficar mais tempo no Teatro de São João. Os últimos fins de semana de Junho foram demasiado quentes, não tive ânimo suficiente para procurar bilhetes e agora, já era! Imagino que seja mais um drama familiar marcado por pequenos episódios quotidianos que pautam uma felicidade possível, já o vimos fazer isso na televisão, mas entusiasmava-me o facto de partir do pressuposto de que ‘todos temos uma ideia da Suécia’.  Eu não tenho ‘uma ideia da Suécia’! Não vejo a Suécia nos filmes do Bergman vejo famílias, angustias, batalhas pessoais… e, vejo-as em praias, casas ou lares mais ou menos desfeitos… Não vejo a Suécia. Também não penso na Suécia quando ouço o ‘Mamma Mia’ ou o ‘Dancing Queen’ dos Abba. Têm músicas orelhudas capazes de nos reverberarem na cabeça durante dias, mas nunca me deram uma ideia da Suécia. Politicamente, confesso que nunca me debrucei muito sobre a utopia social-democrata, mas os poucos números...

Birkin

Faleceu Jane Birkin , aos 76 anos. Atriz, cantora, ativista, livre e considerada, por muitos, ícone de elegância.  Durante anos Birkin fez-se acompanhar de uma cesta de vime. Dizia que não conseguia encontrar uma mala suficientemente confortável e prática. Após um encontro com o diretor da marca francesa Hermès , em 1984, Jane deu nome ao modelo ‘ideal’, nascendo assim o modelo Birkin . Em 2015, Jane solicitou que o seu nome deixasse de estar associado ao modelo Birkin Croco por não respeitar o bem-estar animal, mas o modelo Birkin seguiu como um dos mais caros do mundo chegando a atingir o valor de cerca de 30 000 euros.  Jane passou de uma cesta a que qualquer um podia almejar para uma mala com que só alguns podem sonhar. No final dos anos 80 ainda me mandavam à mercearia buscar o pão com um saco de pano e as senhoras mais velhas levavam as suas cestas para todo o lado, às compras, à cidade com os papéis para mostrar ao médico, com o almeiro nas excursões… mas com o ...

Leveza

Morreu o Milan Kundera.  Não, não vou dedicar-me a obituários, não se preocupem! Não tenho jeito para me dedicar a vidas completas concentro-me demasiado nas episódicas e essas todas juntas não dão a biografia necessária.   Escrever um bom obituário é mais difícil do que escrever uma boa crónica talvez por isso não exista um escritor português que se especialize em tão laboriosa arte. O serviço que o ‘Expresso’ nos oferece com a curadora avençada do Município de Lisboa a compilar informações do ChatGPT e da Wikipédia , não conta. Um bom obituário implica ter ou criar intimidade com o morto e isso é muito difícil principalmente para alguém tão superficial. Morreu o Milan Kundera, dizia, e como sempre que morre ou aparece publicamente alguém que há muito tempo não me assomava à memória o meu primeiro pensamento foi ‘olha, ainda era vivo’. Não consigo substituir isto pela consternação geral partilhada em cartelas nas redes sociais. Em tempos, lia muito o Kundera. Era um per...

Lonjura

No sentido de desincentivar o consumo de tabaco foram aprovadas algumas medidas que visam dificultar o seu acesso. Em 2025, a venda de tabaco fica restrita a locais específicos e de repente uma parte dos portugueses percebeu que fora das áreas metropolitanas o único estabelecimento a que muitas pessoas têm acesso perto de casa é a mercearia que serve de tasca, payshop , revendedor de gás (…) que deixará de vender tabaco e indignou-se.  - Coitado do Sr. Zé  de Duas Igrejas, Miranda do Douro, que vai ter de passar a fazer muitos quilómetros para comprar tabaco .- Gritaram e as televisões foram atrás do Sr. Zé que - Sim, senhor! - Está chateado por ter de passar a fazer muitos quilómetros para comprar tabaco. Confirma. Mais não se esperava de quem é sistematicamente esquecido e de repente se vê com um microfone à frente.  O Sr. Zé confirma e os indignados sentem-se elevados porque denunciaram o problema do Sr. Zé cuja voz nunca teríamos ouvido se não fossem os seus posts e ...

Entretenimento

Assistir às declarações da Chefe do Gabinete do Ministério das Infraestruturas, Eugénia Correia e do Ministro das Infraestruturas, João Galamba na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à Tap tem sido um entretenimento interessante. É daqueles programas em que temos a certeza de que não vai acontecer nada para além do que já conhecemos mas mesmo assim assistimos não vá o Diabo tecê-las. À partida poderia ser aborrecido, para algumas pessoas é, a mim não aborrece. É como assistir a uma telenovela, podemos fazer a lista das compras, pagar contas, responder mensagens e emails, preparar o jantar, jantar, arrumar a cozinha… tudo, enquanto a megera conspira para sacar o galã à mocinha, sem perder o fio à meada.  Foram longas horas de programa em que se confirmou o que já sabíamos. Há no Governo servidores públicos que abusam do lugar que ocupam. É um problema antigo dos ‘mangas de alpaca’. Referem-se a si mesmos como rigorosos e exemplares e atribuem-se uma longa lista de elogios e car...